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Foto: Márcio H. Martins

Por Josué Mattos
Curador do Museu de Arte de Santa Catarina - MASC


A ideia de criar um museu de arte para Santa Catarina data de 1944, afirma o professor Alcídio Mafra de Souza, enquanto frequentava a Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro com o pintor José Silveira D'Ávila, o escultor Moacir Fernandes e o arquiteto Flávio de Aquino. No entanto, foi em 1948, "férias findas", que o projeto aventado ganharia um esboço com fortes contornos, parecendo-lhes injusto que ficasse no papel. Com o surgimento da Revista Sul, em janeiro deste mesmo ano, reflexões e emergências relacionadas ao parco espaço destinado às linguagens artísticas e literárias se tornaram pauta de relevo do projeto editorial. De modo que a quarta edição questionava a possível vinda de Marques Rebelo a Florianópolis como responsável pela "primeira exposição de arte contemporânea" na cidade. Amplamente documentada pela revista, a exposição, encerrada em 06 de outubro de 1948, gerou o primeiro museu de arte de Santa Catarina, o que Salim Miguel atestou, anos mais tarde, em Biografia de um Museu: "como resultado imediato da exposição, surgiu um pequeno Museu, o pátio Marques Rebelo, sob a guarda de Martinho de Haro". Mas, ao oficializar o museu com o decreto 433, de 18 de março de 1949, a autonomia da classe artística seria retirada paulatinamente, iniciando o processo, ainda vigente, que fez Salim Miguel questionar, na Revista Sul de abril de 1951, "a quem caberá a culpa a quase natimorte e consequente paralisação do museu?"

Ao fim das férias de 2018, avançamos o projeto que ainda esboça um museu para Santa Catarina, equipamento educacional capaz de colaborar sistematicamente com o fragilizado projeto de cidadania que vemos polarizado, promotor de ódio, insegurança e turvas perspectivas de futuro, não fosse o fato de continuamente ser tolhido por táticas políticas que encerram sua sistematicidade, mantendo o museu um morto-vivo, inexpressivo e desarticulado.

Com desterro desaterro - arte contemporânea em Santa Catarina, promovemos um encontro não exaustivo de figuras pertencentes a diferentes gerações, que entendem o território da arte vinculado a percursos, trajetos e envolvimentos mútuos. Que convivem continuamente com isolamentos e imersões, enquanto produzem valor simbólico, econômico e social no mesmo grau que fazem emergir questionamentos sobre a esfera pública e a diferença. Que praticam e difundem arte como sedimentação do sensível, que constroem espaços de contemplação e problematizam leituras de mundo, atos de aculturação e resistências contra despropósitos que marcam a história e o tempo presente.

Acrescentar a letra "a" em desterro tem duplo sentido, ideia que devo à artista Raquel Stolf: prevê o desaterro como substantivo e como verbo conjugado em primeira pessoa do singular. No primeiro caso, trata-se de escavações que trazem à tona questões submersas. No segundo, faz referência a quem desaterra, abre trincheiras, revira superfícies. Esperamos que o desaterro do Museu de Arte de Santa Catarina, 70 anos após sua criação, marque a revisão historiográfica proposta e, mais importante, a tomada de posição da sociedade face ao cenário que compromete a salvaguarda do museu e de seu acervo. Precisamos capacitar, preservar, constituir equipes para o MASC. Do mesmo modo, devemos conservar, pesquisar, difundir e apoiar a prática artística. Necessitamos de ações sistemáticas e de apoio do público em geral para uma possível gestão público-privada do MASC, que, salvo engano, terá dificuldades de sair do buraco em que se encontra, resultado da desestruturação projetada pelo poder público.